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É comum o idoso tornar-se alcoólatra?

Danilo Baltieri 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Pessoas idosas apresentam menor tolerância aos efeitos do etanol

por Danilo Baltieri

"Meu avô de 70 anos começou a beber muito há três anos. Ele tem apresentado tremores nas mãos quando não bebe. Minha família faz vistas grossas sobre o problema. Eu estou preocupada com o problema."

Resposta: Independentemente da idade, o consumo inadequado de substâncias psicoativas deve ser considerado uma importante causa de problemas físicos e psiquiátricos. Pessoas idosas têm alguns fatores predisponentes para o abuso de certas substâncias psicoativas, principalmente o álcool e medicações hipnóticas e sedativas.

Como a nossa população vem envelhecendo, nós seguramente encararemos um crescente número de pessoas mais maduras procurando “sensações” fisicas e psíquicas através do uso de drogas. Para algumas delas, essa busca é uma forma de lidar com uma série de perdas do passado; para outras, é uma maneira de lidar com dores e sofrimentos físicos e psíquicos relacionados com a idade. Além disso, para outras pessoas ainda, é uma continuação de um padrão de consumo inadequado de substâncias que iniciou em tempos idos e que permanece na atualidade, sem adequado tratamento e manejo médicos. Alguns estudos europeus apontam uma prevalência de 5 a 12% de abuso/dependência de álcool entre idosos nos seus 60 anos.

Alguns autores têm classificado os alcoolistas idosos em três diferentes grupos:

a) alcoolistas idosos de início precoce: são aqueles que já apresentavam problemas com o consumo de bebidas bem antes dos 60 anos de idade e continuaram o consumo ao longo da vida;

b) alcoolistas idosos de início tardio: são aqueles que começaram a apresentar problemas com o consumo de bebidas alcóolicas tardiamente, comumente categorizado como depois dos 60 anos de idade, muitas vezes após o falecimento de um ente querido, perdas diversas mas significativas para a pessoa, solidão, sensação de estar sendo um peso para a sua família, etc;

c) alcoolistas idosos do tipo “binge drinkers”: são aqueles que bebem ocasionalmente grandes quantidades de álcool, o que lhes causa notáveis problemas.

De fato, modificações abruptas do estilo de vida, tais como aposentadoria e redução das atividades sociais, são fatores contribuintes para o desenvolvimento de problemas emocionais reativos. Isolamento e solidão são fatores extremamente importantes. Somando esses fatores com problemas de saúde típicos dessa fase da vida, o consumo de bebidas pode parecer opção atraente para muitos deles.

Também, pessoas idosas podem começar a beber ou aumentar o consumo de álcool para induzir o sono, reduzir a sensação de dor física e aliviar a ansiedade.

É importante lembrar que pessoas idosas apresentam menor tolerância aos efeitos do etanol, quando comparado a adultos jovens. Isso pode significar maiores efeitos psíquicos e físicos deletérios para o idoso que consome uma mesma quantidade de álcool do que um adulto jovem. Essa redução da tolerância se deve à redução da razão água versus gordura corporal, diminuição do fluxo sanguíneo hepático, redução da atividade das enzimas hepáticas, alteração do funcionamento neuroquímico, dentre outros fatores.

O álcool deprime o funcionamento cerebral, prejudicando a coordenação motora e memória, o que pode provocar quedas e confusão mental. Pode também provocar alterações do humor como: irritabilidade, labilidade emocional e comportamentos agressivos.

É importante notar que idosos costumam fazer uso de diferentes tipos de medicações prescritas. Efeitos colaterais de muitas dessas medicações podem ser recrudescidos devido ao consumo concomitante de etanol. Além disso, interações farmacológicas entre o álcool e as medicações utilizadas são sempre uma preocupação para os cuidadores.

O tratamento de idosos alcoolistas precisa ser baseado em evidências científicas de sucesso. Também, é necessário adequada ênfase na melhora da qualidade de vida, maior interação social e suporte social. Acredito que programas específicos para alcoolistas idosos devam ser desenvolvidos ao redor do país, da mesma forma como serviços especializados em adolescentes dependentes químicos por exemplo. Trata-se de fato de população com necessidades especiais. Logo, uma equipe especializada e disposta a atender esse grupo de doentes é amplamente necessária.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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