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Quais são os efeitos das substâncias contidas no chá Ayahuasca - do Santo Daime?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Danilo Baltieri

Resposta: O chá Ayahuasca consiste na infusão do cipó "Banisteriopsis caapi" e das folhas do arbusto "Psycotria viridis". O uso - inicialmente restrito aos povos indígenas - passou a ser incorporado pelos vilarejos da Amazônia Ocidental e espalhado para outras regiões. A palavra Ayahuasca tem origem indígena, onde “aya” significa “alma espírito” e “waska” significa “corda, cipó”.

O Santo Daime (Culto Eclético da Fluente Luz Universal) foi criado em Rio Branco (AC) por um seringueiro chamado Raimundo Irineu Serra. O chá é feito com a união das plantas: o cipó é o elemento masculino e a folha o feminino. A palavra Daime vem do verbo "dar" mais o pronome "me", como um pedido: - "Dai-me força, dai-me luz".

Existe um ritual no preparo do chá, sendo realizado na última lua nova do mês. A infusão dessas plantas (iniciando o cozimento da folha e do cipó em camadas alternadas), indo ao fogo três vezes, representa o firmamento do sol, lua e estrela. Em seguida, ocorre a ingestão junto aos cânticos dos hinos.

O cipó "Banisteriopsis caapi" é nativo da Amazônia e dos Andes, contendo os alcaloides b-carbolinas inibidoras da enzima MAO (Mono-Amino Oxidase), sendo que os de maior concentração são: harmina, harmalina e tetra-hidro-harmalina.

A "Psycotria viridis" possui em sua composição o alcaloide derivado indólico N, N-dimetiltriptamina (DMT), que atua sobre os receptores da serotonina.

O DMT é um alucinógeno potente, com significativos efeitos comportamentais quando utilizado por via fumada e injetada. Por via oral, esse alcaloide é inativado, exceto quando utilizado em conjunto com inibidores da MAO. É importante reiterar aqui que no chá existem as duas substâncias: o alucinógeno e os inibidores da MAO.

Substancial variabilidade nas concentrações e proporções dos constituintes do chá são esperados, tanto devido ao método de preparação do chá quanto às variações de concentração das substâncias nas plantas.

Como mecanismo de ação, essas substâncias concorrem para aumentar agudamente a atividade serotoninérgica no cérebro, dentre outras neurosubstâncias. Isso significa que um acúmulo excessivo da serotonina pode implicar em vários sintomas fisiológicos, tais como tremor, diarreia, vômitos, hipertermia, sudorese, espasmos musculares, taquicardia, aumento da pressão arterial.

Baseando-se nesse mecanismo de ação, se o usuário do chá também estiver em uso de outras substâncias que atuam no sistema serotoninérgico, tais como antidepressivos, medicações para enxaqueca, ou outras substâncias que atuam no sistema nervoso central, tais como opioides e drogas alucinógenas, os efeitos podem de fato ser bastante nocivos e preocupantes.

Os efeitos psíquicos (psicológicos e cognitivos) da Ayahuasca são dose-dependente e previsíveis; contudo, as reações específicas para cada usuário podem variar substancialmente. O conhecido “estado visionário” tem sido bastante descrito entre os usuários: objetos no ambiente parecem vibrar e aumentar sua luminosidade, cenas aparecem tanto com olhos fechados quanto abertos. É importante notar que esses efeitos não tornam comumente o indivíduo “inconsciente” das suas reações ou mesmo incapaz de tomar decisões.

Embora efeitos como bem-estar, conforto, sensação de estar em “comunhão” com os outros sejam frequentemente apontados como positivos, os efeitos deletérios não podem ser descartados, principalmente entre aqueles indivíduos predispostos ou usuários de outras substâncias.

Até o momento, não há qualquer evidência científica de que o chá possa induzir quadros de síndrome de dependência. No entanto, as pesquisas científicas sobre o tema têm estado ainda em sua infância.

Abaixo, recomendo alguns textos para leitura:

Costa, MCM, Figueiredo MC, Cazenave SOS. Ayahuasca: uma abordagem toxicológica do uso ritualístico. Rev Psiquiatr Clín 2005; 32 (6): 310-8.

Gable RS. Risk assessment of ritual use of oral dimethyltryptamine (DMT) and harmala alkaloids. Addiction 2007;102(1):24-34.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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