DESTAQUES

Qual é a influência do exercício físico na redução de crises epiléticas?

Ricardo Arida 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Ricardo Arida

O estresse é considerado um dos fatores precipitantes de crises mais frequentes em pessoas com epilepsia. Ao mesmo tempo, as crises epilépticas e em particular sua ocorrência sem predição, são suas maiores causas de estresse em pessoas com epilepsia. Nesse sentido, o fato dessas pessoas não saberem quando, onde ou se uma crise epiléptica irá ocorrer, induz a uma grande insegurança e preocupação nesses indivíduos.

Pessoas com epilepsia relatam que a frequência de suas crises aumenta se elas são expostas ao estresse, isto é, ao aumento da tensão, excitação, tristeza ou outras emoções. Portanto, a maioria das pessoas com epilepsia acredita que algumas de suas crises estão relacionadas ao estresse.

Um estudo realizado por Nakken e colaboradores (2005)*, mostrou que o estresse emocional foi o fator precipitante mais frequente. O conceito de que o estresse emocional aumenta a probabilidade de crises epilépticas é fortalecido com achados de estudos psicofarmacológicos e comportamentais, onde a redução dos níveis de estresse e ansiedade resultou em diminuição da frequência de crises**.

Um trabalho publicado no mês de outubro pelo grupo de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, na revista "Epilepsy and Behavior" (Physical exercise in epilepsy: What kind of stressor is it?)*** mostra claramente a importância da atividade física regular na redução do estresse em indivíduos com epilepsia.

Os pesquisadores Prof. Ricardo Mario Arida, Fulvio Alexandre Scorza e Esper Abrão Cavalheiro têm pesquisado sobre efeitos do exercício físico na epilepsia utilizando modelos animais com epilepsia. Dessa forma, os autores do trabalho mostram dados da literatura e de estudos realizados em seus laboratórios sobre esse tópico. O artigo mostra que o estresse físico (exercício físico) pode exercer ações benéficas em pessoas com epilepsia.

Terapias antiestresse

Várias terapias têm sido usadas para a redução do estresse em pessoas com epilepsia como yoga, acumpuntura, meditação e psicoterapia. Embora sejam observados resultados positivos nesses estudos, nenhuma técnica para redução de estresse tem sido analisada profundamente. Uma vez que muitos estudos têm mostrado que um programa de exercício físico provoca uma redução do estresse, os autores sugerem que o exercício físico poderia ser um candidato em potencial para a redução do estresse em pessoas com epilepsia.

O exercício físico representa um estresse físico que altera a ****homeostase do organismo . Em resposta a uma condição de estresse, o sistema nervoso autônomo e o eixo hipotála-hipófise-adrenal reagem para manter a homeostase. A ativação desses sistemas pelo estresse afeta a liberação de hormônios e neurotransmissores que podem alterar a susceptibilidade das crises epiléticas. Ainda, o exercício físico é geralmente aceito na contribuição da saúde geral e bem-estar, na melhora do humor, qualidade de vida, redução dos sintomas de ansiedade e depressão, assim como na capacidade de lidar melhor com o estresse.

Efeitos fisiológicos benéficos como melhorar da condição cardiovascular já está bem documentado, isto é, pessoas com epilepsia apresentam os mesmos benefícios que qualquer outra pessoa como aumento da capacidade aeróbia, aumento da capacidade de trabalho, redução da frequência cardíaca para uma mesma condição de trabalho, redução do peso e de gordura, aumento da autoestima e redução da depressão.

Dessa forma, o exercício físico poderia também induzir positivas ações encontradas nas diferentes terapias citadas acima. Em conclusão, considerando o potencial papel do exercício físico na prevenção ou tratamento da epilepsia, devemos refletir sobre a inclusão rotineira da atividade física para as pessoas com epilepsia.

* Nakken KO, Solaas MH, Kjeldsen MJ, Friis ML, Pellock JM, Corey LA. Which seizure-precipitating factors do patients with epilepsy most frequently report?
Epilepsy Behav 2005;6:85-9.

** Schmid-Schonbein C. Improvement of seizure control by psychological methods in patients with intractable epilepsies. Seizure 1998;7:261-70.

*** Arida RM, Scorza FA, Terra VC, Scorza CA, de Almeida AC, Cavalheiro EA. Physical exercise in epilepsy: What kind of stressor is it? Epilepsy Behav. 2009 Oct 14

****Homeostase: processo de regulação pelo qual um organismo mantém constante o seu equilíbrio




Ricardo Arida

Possui graduação em Educação Física pela Universidade de São Paulo (1980), mestrado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1995), doutorado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1999) e pós-doutorado pela Universidade de Oxford-UK. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo. Tem experiência nas áreas de Neurociências e Fisiologia do Exercício Mais informações: www.ricardoarida.wordpress.com



ENQUETE

Para você, muitas vezes, ficar no estado de solidão pode significar sinônimo de alegria e liberdade?





VOTAR!
Vya Estelar - Qualidade de vida na web - Todos os direitos reservados ®1999 - 2017
O portal Vya Estelar não se responsabiliza pelas informações e opinião de seus colunistas emitidas em artigos assinados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação.