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Buscar o que é importante para você envolve risco

Edson Toledo 01/01/2016 PSICOLOGIA
Nossa capacidade de pensar complica o sistema de sobrevivência

por Edson Toledo

Primeiramente lembremos que a ansiedade e medo são reações naturais e úteis que ajudam a nos manter em segurança.

Pois bem, sentimos medo quando estamos em uma situação que consideramos perigosa. Ficamos ansiosos quando imaginamos ou pensamos sobre algo ameaçador que poderia acontecer no futuro. Ansiedade e medo são compostos por pensamentos, sentimentos, sensações físicas e comportamentos.

Quando estamos ansiosos ou com medo, vemos ameaças facilmente e pensamos sobre a pior coisa que poderia acontecer, sentimos tensão e excitação no nosso corpo, e tentamos escapar ou evitar as coisas que tememos.

Todas essas respostas são úteis para nos dizer que uma ameaça está presente e ajudam-nos a ficar em segurança. Elas nos aprontam para lutar ou fugir de uma situação perigosa ou para congelar, ou seja, não responder de nenhuma maneira na esperança de que o perigo passe. Já que essas reações são tão importantes para a nossa sobrevivência como seres humanos, elas acontecem rapidamente, sem muito raciocínio ou esforço de nossa parte, sempre que vemos uma possível ameaça.

Ficamos apavorados e tensos sem sequer saber o que está causando essa reação. E podemos, automaticamente, evitar situações que parecem perigosas sem sequer perceber isso. Todas essas reações realmente podem nos ajudar a estar a salvo de riscos, especialmente quando nos deparamos com algum perigo físico.

Às vezes, ignoramos reações de sobrevivência e escolhemos enfrentar a ameaça.

Assim, embora lutar ou fugir possam ser as melhores reações a um perigo físico, isso nem sempre funciona tão bem como outros tipos de ameaça. Por exemplo, é natural e adaptativo querer que os outros gostem de nós. Se observarmos até os animais são sensíveis a uma possível rejeição. Eles tentam se dar bem com os outros animais do bando porque isso aumenta as suas chances de sobrevivência. Mas, às vezes, tentar evitar que os outros nos rejeitem, na verdade, causa mais problemas. Por exemplo, se você está ansioso por ter de fazer uma apresentação em seu local de trabalho, porque as pessoas poderiam achar que você não se saiu bem, talvez decida telefonar e dizer que está doente e não fazer a apresentação. Mas dizer que está doente não torna a situação no trabalho mais segura, como se você fugisse de um tigre. Você também pode achar que fazer a apresentação é realmente importante em termos profissionais e resolver fazê-la mesmo estando com medo.

Vejamos outro exemplo, você pode ter medo de dizer "Eu te amo" a alguém pela primeira vez, porque não sabe se essa pessoa retribui o seu sentimento. Mas pode decidir que quer correr o risco, porque valoriza muito ter um relacionamento íntimo.

Uma das coisas complicadas na nossa condição humana é que buscar coisas importantes para nós (relacionamentos, empregos, objetivos pessoais) normalmente envolve correr riscos. É natural a pessoa se sentir vulnerável, insegura ou ansiosa diante de um risco. Assim, apesar de o nosso sistema de sobrevivência nos dizer para evitar as coisas que tememos, às vezes temos de enfrentá-las, se quisermos viver uma vida mais gratificante.

Fato é que a nossa capacidade de pensar complica o sistema de sobrevivência.

Isso mesmo, o nosso sistema de sobrevivência também pode ser acionado por nossas lembranças e imaginação. Podemos nos sentir tão apavorados lembrando alguma coisa que aconteceu antes ou imaginando alguma coisa ameaçadora que poderia acontecer; sentiríamos como se estivéssemos correndo um perigo real, físico.

Captamos, em respostas a eventos da nossa mente, o mesmo sinal de ameaça que captamos diante de ameaças físicas do nosso ambiente. Recordamos todo o tipo de eventos passados e imaginamos todo o tipo de futuros perigos. Então, muitas vezes nos preparamos para reagirmos a situações perigosas que já passaram ou que talvez jamais aconteçam. Isso significa que captamos mais sinais de perigo do que deveríamos e que, frequentemente, eles são muito desorientadores.

Preocupação aumenta a ansiedade e dificulta a vida

A preocupação é um tipo de pensamento que claramente aumenta a ansiedade e dificulta a vida. Se estivermos preocupados com alguma coisa ruim que poderia acontecer, talvez evitemos fazer coisas que seriam divertidas e gratificantes. Por exemplo, podemos evitar começar um novo relacionamento por medo de sermos rejeitados. Ou sentimos que precisamos passar muito tempo fazendo determinadas coisas na esperança de que isso impeça que algo de ruim aconteça. Por exemplo, a pessoa poderia ficar ligando para os filhos para se assegurar de que eles estão bem (eles estão com a babá que fica com eles à tarde), mesmo que isso não seja necessário e até aumente o estresse e a frustação.

Outra reflexão é a de que a nossa capacidade de pensar e imaginar pode nos deixar num estado quase constante de medo e ansiedade.

Por fim, a ansiedade e o medo podem nos afastar do que realmente está acontecendo na nossa vida e impedir a nossa satisfação.

Uma das coisas mais perturbadoras de se estar constantemente com medo e ansioso é que isso realmente prejudica muito a nossa qualidade de vida. Os pensamentos sobre coisas assustadoras que aconteceram no passado e a preocupação com o que pode acontecer no futuro nos distraem do que está acontecendo no presente. Por exemplo, se durante uma entrevista de emprego você estiver preocupado com o que vai acontecer, se o entrevistador não gostar de você ou não ser contratado, talvez tenha dificuldade em escutar o que o entrevistador diz para respondê-lo adequadamente. Ou... se ficar pensando durante o jantar com a sua família sobre algo estressante que aconteceu no trabalho, é menos provável que consiga ter prazer na companhia deles.

Por termer anisedade, as pessoas não assumem correr o risco

Como mencionei antes, as pessoas às vezes evitam fazer certas coisas ou assumir risco porque têm medo de ficar ainda mais ansiosas. Isso pode fazer parecer que não temos muita escolha na vida, pois precisamos gastar a maior parte do tempo e da nossa energia garantindo que as coisas ruins não aconteçam. A ansiedade e a preocupação podem consumir muito tempo e energia e fazer com que a pessoa se sinta sobrecarregada, cansada, e como se estivesse no piloto automático, fazendo as coisas maquinalmente, vendo a vida passar em vez de vivê-la plenamente. Acreditamos que o efeito que a ansiedade e a preocupação têm sobre a vida das pessoas é, na verdade, mais perturbador do que as próprias experiências de preocupação e ansiedade.

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Edson Toledo

Coordenador do serviço de atendimento a pacientes com tricotilomania no PRO-AMITI/IPq FMUSP. Supervisor clínico na UNIP. Psicólogo pela Universidade Metodista. Mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da USP. Especialização em Terapia Cognitivo-comportamental pelo Ambulim/IPq FMUSP. Especialização em Psicologia Hospitalar pela UNISA

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