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Boa intenção é pouco

Redação Vya Estelar 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Angelina Garcia

O banco de espera lotado não impede que Vanda peça licença quando percebe que apertando de cá e de lá lhe sobraria um lugar.

O senhor ao lado, meia-idade, rosto bem marcado, amuou-se ainda mais.

- A gente tem é que sentar mesmo. A coisa aqui demora.

Habituada ao seu exame mensal, ela nunca esperou além de vinte minutos. Sentou-se, olhou de relance a solicitação que ele trazia nas mãos e constatou hora e meia de atraso no atendimento.

- A moça pediu que o senhor esperasse aqui?
- Aquela moça lá, e faz tempo.
- Mas é no outro balcão. Me dá o papel que eu volto já.

E voltou com tudo resolvido, a danada.

- Em no máximo dez minutos estão chamando o senhor.

Ele lhe arranca o pedido do exame e começa a despejar, ainda que entre dentes, todos os impropérios a quem, segundo ele, deu-lhe a informação indevida. As veias saltam, a espuma vem e volta no canto da boca, enquanto as pessoas ao redor tentam acalmá-lo. Mas o ataque de raiva dura até que o chamem.

- Nossa, moça, ele nem te agradeceu, conclui uma senhora.

Vanda responde com um sorriso de "não tem importância". De fato não tinha, se conseguirmos supor o que passou pela cabeça do homem.

Mesmo não podendo afirmar suas razões, sabemos que alguma coisa nele o impedia de verificar a demora, tanto que não o fez; talvez porque estivesse acostumado a esperar, ou pouco à vontade para colocar em xeque a autoridade da recepcionista; talvez não se sentisse seguro de tê-la entendido bem. Seja o que for, ele estava sob pressão, o que lhe tirou a possibilidade da satisfação em ver seu problema resolvido; ao invés disso, a atitude de um estranho apenas evidenciou sua falta de atitude, causando-lhe, bem justificada, tamanha irritação.

Na dificuldade em assumir que não enxergamos o que está ali na nossa frente, procuramos uma desculpa, ou um culpado pelo que deixamos de fazer; assim como aconteceu com o nosso paciente, mesmo que a questão passasse a ser sua e não da moça do balcão. Sabe-se lá quanto mais esperaria sem uma Vanda por perto, atenta, disponível, solidária e disposta a fazer o que precisa ser feito.

É muito bom poder contar com esse tipo de pessoa, mas ela também corre o risco de, em situações como esta, deixar-se levar pela gostosa sensação da descoberta imediata de uma solução para o problema do outro e agir em seu lugar.

Embora movidos pela melhor das intenções, é necessário cuidado com aquele a quem só queremos ajudar, para não o atropelarmos e acabar atestando-o como incapaz. Melhor seria que antes nos dispuséssemos a conversar e, juntos, encontrássemos a saída.

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Redação Vya Estelar

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