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Reflita: em relação a quase tudo na vida podemos nos eximir de responsabilidade

Luiz Alberto Py 01/01/2016 PSICOLOGIA
Existe uma via paralela à da inveja e hostilidade: a do amor e gratidão

por Luiz Alberto Py

Um amigo me procurou para contar que ficou deprimido com um incidente. Ele havia começado um curso de inglês, teve excelente desempenho na primeira aula e, na segunda aula, encontrou-se com uma professora que o conhecia. Ela, que já havia recorrido a seus serviços profissionais, fez rasgados elogios a ele na presença de seus colegas de aula, o que o deixou constrangido e inibido. Como resultado, seu desempenho na aula foi péssimo: não conseguia falar com desembaraço, gaguejava e não se lembrava de coisas elementares. Percebeu que tal comportamento estava relacionado com os elogios recebidos. "Me senti observado, cobrado, obrigado a um grande desempenho".

Comentei que o seu sentimento (observado, cobrado, obrigado) correspondia a uma expectativa, imaginada por ele, em relação às pessoas presentes à aula. Indaguei se ele não achava esta expectativa agressiva. Concordou, dizendo que se sentia ameaçado de ser criticado. Perguntei: "Por que esperar tal agressividade de pessoas que você nem conhece?" E sugeri, como resposta, que esperamos dos outros de acordo com nossas experiências ou sentimentos.

Má vontade com quem faz sucesso

E que experiências ou sentimentos seriam estes? Minha ideia é que seria uma má vontade antecipada para com pessoas que se destacam (como ele havia se destacado, ou melhor, sido destacado pela professora). Acrescentei as perguntas: "Por que esta expectativa de má vontade? Que sentimento mobilizaria as pessoas a serem hostis aos que aparecem, são elogiados ou fazem sucesso? Ele me respondeu, meio perguntando: "Inveja?"

Que inveja seria esta? Donde viria? Para responder convém não esquecer que estamos falando do que ele está sentindo. "Minha inveja? Sou invejoso?", ele pergunta. Propus imaginarmos que seus sentimentos não correspondem a uma reflexão objetiva; neutra e fria, mas se originam de emoções que em geral correspondem a sentimentos antigos, coisas vividas muito precocemente como, por exemplo, uma criança que sente inveja do poder e liberdade de que seus pais parecem dispor.

Na verdade, esta observação sobre a inveja primitiva foi desenvolvida pelos primeiros psicanalistas. O próprio Freud, criador da psicanálise, falou da rivalidade que observou em seus clientes com relação à figura do pai e descreveu suas observações dando ao fenômeno o nome de "Complexo de Édipo". Desenvolvendo um pouco mais o tema: se a criança sente inveja de quem considera mais forte, ou melhor, nada mais natural do que temer ser invejado quando estiver sendo assim considerado.

Neste caso, faz sentido a pessoa ficar assustada e atrapalhada pelo medo da repercussão de sua imagem junto às pessoas que nem conhece, pois supõe que elas sejam igualmente invejosas dos que se destacam ou fazem sucesso. De acordo com esta maneira de sentir (não chega a ser uma maneira de pensar, pois o pensar está vindo depois, como uma reflexão sobre o que é sentido), a admiração e a inveja andam de braços dados; portanto ser admirado significa estar ameaçado de se tornar alvo da inveja alheia; quanto mais pessoas admirando, mais pessoas invejando, hostilizando e agredindo.

Ele contou que o incidente que me narrou o deixou deprimido, com dificuldade para qualquer desempenho e concordou que poderia ser uma reação de medo de que as pessoas (todas e quaisquer pessoas) o invejem e o hostilizem se fizer sucesso. Acrescentou ter muita dificuldade de mostrar os resultados finais de seus estudos e trabalhos por temer - a ponto de ficar paralisado - as críticas que porventura possa receber. Perguntou-me como se pode sair desta situação.

Disse-lhe que existe uma via paralela à da inveja e hostilidade, pavimentada por amor e gratidão. Expliquei que, ao mesmo tempo em que inveja os pais e com eles rivaliza, a criança também percebe o carinho e amor com que está sendo ajudada por estes mesmos pais e assim pode não apenas invejá-los, porém também sentir gratidão pelo que deles recebe.

Portanto, para neutralizar o sentimento que nos leva a uma expectativa de hostilidade por parte de nossos possíveis rivais devemos compreender que tais rivais podem muito bem se tornar admiradores e amigos nossos, principalmente se pudermos acreditar em nossa capacidade de partilhar com eles nosso sucesso e nossas conquistas. O grande segredo está, portanto, em nossa capacidade de transformar rivalidade em solidariedade investindo no amor fraterno para com ele contrabalançar o ódio, a marca de Caim.




Luiz Alberto Py

É médico psiquiatra e psicanalista. Clinica no Rio de Janeiro e faz palestras por todo o Brasil. Publicou em 2002 o best-seller "Olhar acima do horizonte", em 2004: "A felicidade é aqui" e "Saber amar" todos pela editora Rocco. Mais informações: http://doutorpy.blogspot.com



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